“Primeiro a gente escuta”, por Diogo de Castro Gomes
Entre Djavan e Lacan, o psicanalista Diogo de Castro Gomes investiga os sentidos da falta
Há palavras que passam. Outras pousam. Algumas permanecem, fazendo um pequeno barulho dentro da gente, como se ainda procurassem um lugar onde finalmente pudessem significar. Certas canções sobrevivem assim: terminam no rádio, continuam no ouvido. Com Djavan acontece desse jeito. As palavras parecem saber umas das outras antes que nós saibamos delas. Aproximam-se pelo som, pela sílaba, pelo sopro. Às vezes basta uma esquina entre duas palavras para que outra paisagem apareça. A língua começa a experimentar a si mesma. Talvez escutar seja justamente isso: permanecer um pouco mais perto daquilo que ainda não encontrou uma explicação.
Há frases que contam uma história, outras contam um tropeço. Algumas continuam falando mesmo depois do silêncio. Uma palavra retorna, outra escorrega, uma terceira insiste. O ouvido acompanha esse pequeno movimento e permanece com ele um pouco mais. Volto muitas vezes a Esquinas. Há um verso que nunca me deixa em paz: “Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar?”. O verso gira sobre o verbo, o verbo gira sobre a falta. O “ter” retorna, retorna outra vez, até que o sentido começa a girar junto com o som. A língua dá voltas ao redor de uma ausência, deixando a falta trabalhar dentro da própria linguagem.
Anos depois encontrei Lacan escrevendo: “Amar é dar aquilo que não se tem”. Escutei uma vizinhança. Os dois passam pela mesma esquina. Cada um encontra, à sua maneira, uma forma de deixar que a falta fale sem transformá-la numa explicação. Talvez o amor tenha sempre alguma coisa dessa experiência. A palavra procura aquilo que falta, a língua deriva, o dar encontra seu limite naquilo que se possui. Há um saber que nasce assim. Chega aos poucos, entre um som e outro, entre uma palavra e outra. Um saber que se produz enquanto se escuta, como acontece em uma psicanálise, como acontece em uma canção. Talvez seja por isso que algumas músicas nunca terminem quando acabam. Elas continuam escutando dentro da gente até que uma palavra volte a nos ouvir.
Com informações de: gay blog




